Bancos e grandes empresas desembarcam do governo Bolsonaro e ligam cronômetro para impeachment

Criado em 1875 para defender os interesses da elite escravista cafeeira e hoje controlado pelo setor agro-financeiro-empresarial paulista, o Estadão tem feito sucessivos editoriais mostrando para Bolsonaro que o tempo dado a ele para impor as reformas está chegando ao fim

Porta-voz de banqueiros e grandes empresários, que concentram escritórios entre as avenidas Paulista e Brigadeiro Faria Lima, na capital paulista, o jornal O Estado de S.Paulo tem mandado recados sucessivos a Jair Bolsonaro que o tempo – e a paciência – dado a ele pelos detentores de um terço do PIB nacional para impor as reformas neoliberais está no fim e que o impeachment pode ser seu destino em um futuro próximo.

Após dizer que a “nova política” proposta por Bolsonaro não passa de “amadorismo” no domingo (1º), nesta terça-feira (3), o jornal, que foi criado em 1875 para defender os interesses da elite escravista cafeeira e hoje é controlado pelo setor agro-financeiro-empresarial paulista, voltou à tona em novo editorial, criticando duramente a postura submissa e passiva do presidente brasileiro ante à retaliação comercial anunciado por Donald Trump contra a indústria do aço e alumínio do Brasil.

“É difícil dizer se a passividade de Bolsonaro diante de uma evidente agressão reflete seu despreparo em relação a questões de Estado, uma espantosa ingenuidade ou incompreensão do que se passa no cenário internacional. Ou será uma mistura de tudo isso?”, relata o Estadão.

Nesta segunda-feira (2), o Instituto Aço Brasil – antigo Instituto Brasileiro de Siderurgia, presidido pelo bolsonarista, Sergio Leite de Andrade, demonstrou “perplexidade” diante da retaliação imposta por Trump, que atinge diretamente o setor.

Presidente da Usiminas, Andrade é um dos 10 empresários, que representam 32% do PIB, que divulgaram um manifesto de apoio a Jair Bolsonaro antes do segundo turno das eleições em 2018.

Banqueiros
A insatisfação crescente com as medidas atabalhoadas do governo é refletida nos boletins diários que chegam aos banqueiros em relatórios feitos pala Atlas Político, que tem revelado um derretimento da popularidade de Bolsonaro, que já atinge um em cada quatro brasileiros.

Para o cientista político Andrei Roman, da empresa que faz esse monitoramento, as declarações autoritárias em defesa do AI-5 e achaques à imprensa e a ONGs impactaram no aumento da rejeição de Bolsonaro.

As acusações infundadas que resultaram na prisão de quatro brigadistas ligadas ao projeto Saúde e Alegria, que é financiado por grandes empresas, como responsáveis pelos incêndios na Amazônia formaram mais um ponto de inflexão no discurso dos capitalistas em relação a Bolsonaro.

Em dura nota divulgada na quinta-feira (28), o Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE), que reúne entidades ligadas a 141 empresas que financiam projetos nas áreas sociais, criticou duramente as “aspirações autocráticas mais profundas” de Jair Bolsonaro que promovem a “erosão crescente do nosso ambiente democrático”.

“No marco da erosão crescente do nosso ambiente democrático, o ano de 2019 tem sido marcado pela profunda hostilidade oficial à atuação do terceiro setor e da sociedade civil no Brasil”, diz a nota pública do grupo, que reúne fundações ligadas a bancos como Bradesco, Banco do Brasil e Bank of America, e às maiores empresas em atuação no país, além de grupos de comunicação, como a Rede Globo.

No Congresso
As conversas sobre o fim da linha para Bolsonaro já é pauta nos corredores do Congresso Nacional até mesmo entre apoiadores do presidente, que levantam até mesmo hipóteses para iniciar o processo.

Em áudio vazado nesta segunda-feira (2), o presidente do PSL do Rio Grande do Sul, o deputado federal Nereu Crispim, declara, em conversa com uma interlocutora a quem chama de Rose, que Jair Bolsonaro “vai tomar um impeachment” e liga a possibilidade à ligação do capitão com o esquema de candidaturas laranjas da sigla, que quase cassou o mandato do parlamentar.

“Eu conheço o Bivar. E se houve alguma coisa lá errada, tem que cassar é o mandato do Bolsonaro, porque o partido tava com ele, não era com o Bivar, antes”, afirmou o deputado.

Em outro trecho, ele declarou: “Eu vou só dizer uma coisa pra ti: o Bolsonaro vai tomar um impeachment. Escuta o que eu tô te dizendo”.

Detentores de um terço do PIB nacional – com transações que chegaram a R$ 2,2 trilhões em 2018 -, os escritórios da Paulista e da Faria Lima mandam recado pelas páginas do Estadão que o cronômetro do impeachment contra Bolsonaro foi acionado. Resta saber quanto tempo o capitão ainda tem para impor aquilo que lhe foi encomendado até ser descartado por quem o colocou na Presidência. Tic tac.

Fonte: Revista Fórum

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