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Sequência de eventos ilustra saldo desastroso da política externa em 2019

Conferência ambiental, cúpula do Mercosul e aniversário da Otan ajudam a mostrar os erros do governo Bolsonaro

O encerramento da 25a conferência da ONU sobre o clima nesta sexta-feira 13 coroa uma sequência de acontecimentos capazes de resumir um ano de política externa do governo Bolsonaro. Um saldo que beira o desastre, a julgar pela conferência (COP 25), realizada em Madrid, pela 55a Cúpula do Mercosul, na gaúcha Bento Gonçalves, e pelos 70 anos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), festejados na cidade britânica de Watford.

O Brasil portou-se de modo confuso na COP 25, na visão de alguns observadores, sem posições claras para defender. Sinal disso foi a ausência de um estande oficial no evento. Militantes ambientalistas e representantes do setor privado tiveram de montar um estande por conta própria.

Inimigo dos ambientalistas, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi a Madrid disposto a conseguir dinheiro. “Já tomamos uma decisão no Brasil, que é pró-negócio, de monetizar o ativo ambiental brasileiro”, disse ao Valor. Não conseguiu. E ainda viu Izabela Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente, dizer por lá que COP não é lugar de passar o chapéu, mas de construir acordos e leis.

Marina Silva, outra ex-ministra, afirmou durante o evento que o Brasil praticava “chantagem” ao cobrar grana para fazer o que se comprometera a fazer no passado, preservar a Amazônia.

O Brasil tinha dinheiro da Alemanha e da Noruega no Fundo Amazônia, de conservação da floresta. A fonte secou em agosto, por causa das queimadas amazônicas. Salles disse na COP que a Alemanha havia topado novas regras para o fundo, o que levaria à retomada do financiamento. Foi desmentido pela embaixada alemã em Brasília, que comentou ter visto “com espanto” a declaração.

Outra declaração espantosa partiu do presidente Jair Bolsonaro em Brasília, enquanto a conferência climática acontecia na Espanha. Ele chamou de “pirralha” a jovem ambientalista sueca Greta Thunberg. Um dia depois, 11 de dezembro, Greta, de 16 anos, despontava na capa da revista americana Time na condição de “personalidade do ano”.

CAPA DA REVISTA TIME COM GRETA THUNBERG, A PERSONALIDADE DO ANO (REPRODUÇÃO)

Com a atual política ambiental pró-fazendeiros, o Brasil não apenas perde prestígio diplomático internacional, como sabota mas outros objetivos de política externa do próprio governo. Por exemplo: o acordo de livre comércio firmado em junho entre Mercosul e União Europeia.

Durante as queimadas amazônicas, o presidente da França, Emmanuel Macron, disse que o Brasil havia mentido sobre compromissos ambientais e que isso inviabilizaria a entrada em vigor do acordo comercial. Para este sair do papel, é necessária a aprovação no parlamento de todos os países envolvidos. Basta a reprovação de um, para tudo ir por água abaixo.

Em setembro, o parlamento austríaco aprovou uma moção contra acordo. Em outubro, a ministra francesa do Meio Ambiente, Élisabeth Borne, manifestou-se em linha com o chefe. “Não podemos assinar um acordo comercial com um país que não respeita a Amazônia e não respeita o acordo de Paris [clima]. A França não assinará o acordo com o Mercosul nessas condições”, disse.

O bloco-sul americano reuniu-se dias 4 e 5 no Rio Grande do Sul, e Bolsonaro passou o comando rotativo do grupo ao Paraguai, de seu amigo direitista Mario Abdo Benitez.
Fonte: Carta Capital

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