Amplitude da conferência, contudo, não refletiu de maneira uniforme entre os setores, e o público concentrou-se em empreendimentos de alto padrão
A COP15 (15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres) se aproxima e, com ela, chega também a expectativa de movimentação nos setores sul-mato-grossenses. O evento, que ocorre em Campo Grande entre os dias 23 e 29 de março, prometia aquecer a demanda por hotéis, restaurantes e atrativos turísticos, com a presença de aproximadamente 3 mil participantes.
Com a Capital escolhida ‘a dedo’ como palco da conferência global — que estima reunir mais de 130 países —, a proposta representa ainda uma oportunidade de projetar Mato Grosso do Sul em cenário mundial. Entre as adequações para receber os visitantes, a influência estrangeira já começa a aparecer em guias e orientações, que agora integram também outros idiomas.
Apesar da preparação, a amplitude da conferência não refletiu de maneira uniforme para suprir o esperado entre os setores. Diferentemente da COP30, quando até imóveis populares tiveram buscas entre as hospedagens em Belém (PA), a hotelaria campo-grandense permanece com vagas disponíveis mesmo poucos dias antes da abertura oficial. Conforme Juliano Wertheimer, presidente do Sindha (Sindicato Empresarial de Hospedagem e Alimentação), a demanda concentrou-se, principalmente, em hotéis cinco estrelas.
“Nós identificamos que os hotéis 5 estrelas tiveram uma procura um pouco maior, estão com uma ocupação mais alta, mas não estão lotados. E os hotéis 4 e 3 estrelas sentiram pouquíssima procura para esse período. […] Tem muitos leitos à disposição, a ocupação não foi impactada pelo evento, ou seja, os empresários se prepararam, mas ainda não teve a busca esperada”, comenta.
Além do alto padrão procurado pelos participantes, Juliano destaca que existem públicos distintos que compõem o evento e, com isso, ocorre uma descentralização da proposta. “A COP tem necessidades específicas, ela é bem descentralizada. Ela acontece simultaneamente no Rubens Gil de Camillo, no Centro de Exposições Bosque dos Ipês e na UFMS, e são três públicos também distintos. Tem o pessoal mais governamental, que vai ter a conferência em si; tem o setor mais empresarial, que acontece em paralelo; e tem os pesquisadores, os estudantes e os ambientalistas, que se reúnem mais na UFMS, e, assim, descentraliza o evento”, explica.
Do ‘high ticket’ às opções mais ‘em conta’
Com a diversidade de público, o representante do sindicato explica que as refeições procuradas devem variar entre o ‘high ticket’ e opções mais baratas. Enquanto delegações internacionais e representantes governamentais concentram gastos mais elevados, outros grupos tendem a movimentar valores mais baixos, criando um cenário heterogêneo dentro da própria conferência.
“[O gasto diário] vai de R$ 800 a R$ 1.200, quando é um público internacional. O internacional vem com ticket em dólar, então, o gasto médio é um pouco mais alto; quando são clientes governamentais, o gasto é mais alto. Quando entra em estudantes, professores, o ticket cai. Então, como eu te digo, tu tem hotéis ali que vão de R$ 250 até R$ 1.000, R$ 1.200 a diária”, afirma Juliano.

(Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)
Setor hoteleiro
Entre os hotéis mais procurados para a COP15, está o Deville Prime Campo Grande. Com 97% de ocupação durante o período do evento, o gerente-geral Eduardo Troian explica que parte dos clientes já chegou à Capital nesta semana. O preparo para receber a ‘miscelânea’ de participantes, contudo, começou meses antes, aumentando o quadro de funcionários e reforçando o estudo da língua inglesa.
Mais uma vez, o perfil dos hóspedes reforça o caráter internacional do evento. “Para a COP, é uma miscelânea bem grande. Então, a gente vê gente da Suécia, Alemanha, Ásia, países asiáticos também, países árabes. Grande parte é envolvida nos governos locais, são representantes do meio ambiente também. É um público bem diverso. Hoje, no nosso hotel, [tem] mais estrangeiros”, comenta Eduardo.
Pratos típicos e alimentação
Além disso, o profissional destaca que o restaurante do hotel ainda mobiliza um cardápio com comidas típicas e cantores locais. “Não pode escapar a feijoada, isso é certo; a gente vai ter feijoada na próxima semana, mas também peixes do Pantanal. A gente tem o pintado à urucum, que é um clássico aqui do nosso cardápio, e vai ser bem importante que eles conheçam os nossos sabores também.”
E se a culinária típica brasileira inclui a feijoada, o churrasco também ganha um lugar nessa lista. Alberto Ribeiro, subgerente da Fazenda Churrascada, afirma estar com boas expectativas e mesas já reservadas para o período. Com 4,3 estrelas e opções que variam de pratos executivos à ‘costela fogo de chão’, o restaurante oferece uma experiência que se estende também ao espaço.
“A gente fica muito contente de receber tanta gente de fora do país e poder dar a oportunidade de mostrar o que é o churrasco brasileiro. A nossa casa oferece música ao vivo, raiz, sertanejo, para o pessoal entender um pouco mais da nossa cultura. O pessoal acha que Brasil é muito ligado à samba e Carnaval, mas também tem as outras regionalidades”, destaca Alberto.
Turismo sul-mato-grossense
Além de refletir a diferença entre os setores de hotelaria e alimentação, a COP15 gera ainda uma distinção entre os segmentos do turismo. Conforme relatos do ramo de transfer aéreo, a busca pelo deslocamento entre Campo Grande e destinos pantaneiros segue dentro da normalidade, sem ‘menção direta’ alguma à conferência.
A mesma percepção aparece em empreendimentos do interior. Locais turísticos do Pantanal também afirmam que não houve aumento nas reservas para o período, mesmo oferecendo alto padrão e com potencial de conexão com o tema ambiental do evento.
Apesar de semelhante, a busca por passeios pantaneiros da Agência Consciência Ecológica Viagens e Turismo ainda aparece pouco maior que o comum. “A gente já percebe aumento gradual na procura principalmente nas semanas que antecedem a COP15. Ainda não é um crescimento explosivo, mas é um público qualificado, que planeja com antecedência”, comenta Emanuel Santos, representante da agência. A expectativa, contudo, é de que o destino ganhe visibilidade internacional após o evento.

‘Oportunidade estratégica’
Mesmo com impactos desiguais, as esferas pública e privada se mobilizam para receber os visitantes com a receptividade que só o brasileiro oferece e, de quebra, promover o que há de melhor no Estado. Além disso, a conferência é vista por Campo Grande como uma oportunidade de projeção. A Capital aposta na divulgação de atrativos e na consolidação do turismo de negócios como uma das principais vocações locais.
Conforme Wantuyr Tartari, gerente de Turismo da Semades (Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável), entre os destaques campo-grandenses, estão: o Mercadão Municipal de Campo Grande; a Feira Central de Campo Grande; o Parque das Nações Indígenas e o Bioparque Pantanal.
“A Prefeitura, através da Semades, reformulou os roteiros existentes e está lançando mais dois novos roteiros, ambos em três idiomas. Os roteiros que nós já tínhamos é o de observação de aves, o roteiro de turismo de aventura e agora a novidade é o roteiro de turismo religioso e o de turismo de feiras criativas. Esses roteiros foram pensados para serem lançados exclusivamente agora a partir da COP15. A COP15 é uma oportunidade estratégica para posicionar Campo Grande como destino sustentável. A ideia é consolidar a imagem da Capital como referência nesse tipo de turismo em todo o Brasil e até internacionalmente”, informa o gerente.

COP15 em Campo Grande
Campo Grande sediará a COP15, evento sobre a conservação das espécies migratórias de animais silvestres. O secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, e a secretária nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais da pasta, Rita Mesquita, participarão do encontro.
A conferência deve reunir representantes de diversos países, além de organismos internacionais, pesquisadores e autoridades ambientais. Porém, diferentemente da COP30, que debate o clima anualmente, a COP15 debate questões relativas às espécies migratórias e ocorre a cada 3 anos.
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, 50 projetos participarão da Conferência. Os eventos ocorrerão simultaneamente em diferentes locais, incluindo a ‘Blue Zone’, no Shopping Bosque dos Ipês; o Bioparque Pantanal; a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), com a programação paralela COP15 POP; e o Parque das Nações Indígenas.














