O presidente do Senado, Davi Alcolumbre - 7/8/25 (Foto: Edilson Rodrigues/Senado)

Aportes foram feitos mesmo após avisos do TCU e do MPF sobre irregularidades

O presidente da Amapá Previdência (Amprev), Jocildo Lemos, indicado politicamente pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, realizou aportes de R$ 400 milhões em títulos do Banco Master mesmo após sucessivos alertas sobre riscos e suspeitas envolvendo a instituição financeira. As informações foram reveladas pelo jornal Estado de S. Paulo, que detalhou como os investimentos ignoraram recomendações técnicas e advertências de órgãos de controle.

A liquidação do Banco Master, decretada nesta terça-feira, 18, criou um cenário de vulnerabilidade para servidores públicos e aposentados do Amapá, que podem enfrentar prejuízos milionários devido à exposição a papéis sem garantia — já que as letras financeiras adquiridas pela Amprev não são cobertas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Investimentos feitos apesar de alertas de risco

Em julho do ano passado, a Amprev realizou quatro aportes consecutivos em letras financeiras do Master, decisão tomada sob protesto de conselheiros e em meio a advertências formais do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Ministério Público Federal (MPF). Os dois órgãos investigavam operações da Caixa Econômica Federal envolvendo papéis do mesmo banco.

Os representantes Alexandre Flávio Monteiro e Gláucio Bezerra chamaram atenção para pontos sensíveis, como a concentração excessiva de recursos e o risco reputacional. Eles advertiram ainda sobre a possibilidade de o Master perder capacidade de captação em razão das investigações.

Apesar disso, Jocildo Lemos minimizou as preocupações. De acordo com ata da reunião, ele declarou que “no mercado sempre há histórias” e que notícias de problemas em instituições financeiras seriam “conversas, pois não há nada concreto com procedimento”.

Embora pressionado a consultar órgãos de controle antes de aprovar os aportes, Lemos rejeitou a proposta, alegando que enviar ofícios à Caixa e ao TCU não seria “prudente”, argumentando ainda questões relacionadas à Lei Geral de Proteção de Dados e à presunção de inocência.

Articulação política e influência

A reportagem destaca que Jocildo Lemos é um aliado de Alcolumbre. Ele próprio já havia reconhecido publicamente a indicação, afirmando, ao receber um prêmio, que foi convidado para o cargo pelo senador. Em suas palavras: “Sobretudo ao senador Davi Alcolumbre, que me convidou para ser o presidente da Amapá Previdência.”

O irmão de Alcolumbre, o advogado Alberto Alcolumbre, ocupa a função de conselheiro fiscal da Amprev, ampliando a presença do grupo político no comando do fundo de pensão.

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Alcolumbre, porém, negou interferência. Em nota, declarou que “não possui qualquer participação, influência ou atribuição em nomeações, decisões administrativas ou escolhas de investimento da Amapá Previdência”.

Visita à Faria Lima e relatório divergente das investigações

Após as advertências internas, Lemos condicionou a aprovação dos aportes a uma diligência presencial na sede do Master, sem solicitação de documentos, apenas para “conhecer fisicamente a instituição”. Três dias depois, membros da Amprev viajaram à Avenida Faria Lima, onde foram recebidos por cinco diretores do banco.

O relatório da visita concluiu que denúncias divulgadas na imprensa seriam “falsas”, sustentando que o Master possuía solidez financeira comprovada por balanços e relatórios de rating. Também mencionou lucro superior a R$ 500 milhões no primeiro semestre e um patrimônio líquido de R$ 4,3 bilhões.

Essa avaliação, no entanto, contrasta frontalmente com as investigações da Polícia Federal. A operação Compliance Zero, deflagrada na terça-feira, levou à prisão do presidente do Master, Daniel Vorcaro, e de quatro diretores, apontados por fraude bilionária envolvendo simulações de operações de crédito e emissão irregular de títulos. Os ilícitos podem superar R$ 12 bilhões, segundo os investigadores.

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Exposição elevada e impacto sobre o fundo

Com aportes sucessivos, a Amprev terminou com R$ 430 milhões alocados no Banco Master, o equivalente a 4,7% do seu patrimônio, tornando-se o segundo maior fundo de pensão exposto aos papéis da instituição.

Apesar da liquidação do banco e do risco evidente, a Amprev afirmou, em nota, que os investimentos seguiram normas e políticas definidas e que o patrimônio dos segurados está protegido. A autarquia garantiu ainda sua “indignação” diante das irregularidades atribuídas ao Master e assegurou que benefícios não serão afetados:

“O patrimônio evoluiu de R$ 6,4 bilhões em 2023 para aproximadamente R$ 9,1 bilhões em 2025, um aumento de 41%. Essa robustez garante, com segurança, o pagamento de aposentadorias e pensões até 2048.”

O Banco Central, porém, identificou crise de liquidez no Master, e a liquidação custará R$ 41 bilhões ao FGC, verba formada com recursos de todo o sistema financeiro.

Governança contestada e falhas apontadas pelo TCU

Em relatório divulgado no último dia 12, o TCU apontou falhas graves na governança da Caixa Asset ao aprovar investimentos similares nos papéis do Master. A auditoria identificou concentração excessiva de poder decisório e fragilidades nos limites de alocação, aumentando exponencialmente o risco.

As mesmas vulnerabilidades parecem ter sido replicadas na Amprev, onde dois representantes dos servidores foram vencidos pelos indicados políticos no comitê de investimentos.