México rejeita envio de tropas dos EUA para combater cartéis (Foto: Raquel Cunha/REUTERS)

Claudia Sheinbaum reafirma que apenas forças mexicanas atuarão no país e critica contradições dos EUA, de onde vem a maioria das armas usadas pelo crime

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, reafirmou nesta segunda-feira (9) que apenas as Forças Armadas mexicanas poderão realizar operações militares no território nacional, rejeitando de forma categórica a proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de enviar tropas americanas ao país para combater o narcotráfico. As informações da da Telesur.

Durante sua conferência diária, a mandatária também destacou que Trump reconheceu publicamente a recusa mexicana. Sheinbaum reiterou que o México manterá sua posição contra a proposta de Washington de formar uma “coalizão militar regional” contra os cartéis, iniciativa apresentada recentemente durante a Cúpula Escudo das Américas, realizada em Miami.

Ao comentar o tema, o governo mexicano também apontou uma contradição na política de segurança dos Estados Unidos. Segundo autoridades do país, embora o governo Trump classifique os cartéis mexicanos como organizações terroristas, grande parte do armamento utilizado por esses grupos criminosos tem origem em território americano.

Dados citados pelo governo indicam que o próprio Departamento de Justiça dos Estados Unidos admite que cerca de 75% das armas apreendidas de criminosos no México foram fabricadas ou comercializadas nos Estados Unidos. Autoridades mexicanas argumentam que, sem esse fluxo constante de armamentos de alta potência, os cartéis perderiam parte significativa de sua capacidade bélica.

O secretário da Defesa Nacional do México, general Ricardo Trevilla, apresentou números semelhantes. Segundo ele, 78% das armas confiscadas de criminosos no país foram adquiridas em lojas de armas localizadas nos estados americanos do Texas, Arizona e Califórnia.

Trevilla também revelou que quase metade da munição calibre .50 apreendida no México foi produzida na fábrica de Lake City, em Kansas City, principal fornecedora de munição do Exército dos Estados Unidos. Esse tipo de munição é utilizado em armamentos de grande potência, capazes de perfurar blindagens e derrubar aeronaves.

O fluxo desse tipo de equipamento militar permite que organizações criminosas adotem táticas de guerra. Entre os armamentos usados pelos cartéis estão fuzis Barrett, metralhadoras de diversos calibres, lançadores de granadas e até lançadores de foguetes, empregados em confrontos diretos com forças de segurança mexicanas.

Apesar desse cenário, o governo afirma que a atual estratégia de segurança tem produzido resultados. Sob a coordenação do secretário de Segurança e Proteção Cidadã, Omar García Harfuch, operações realizadas entre outubro de 2024 e janeiro de 2026 resultaram na prisão de mais de 43 mil pessoas por crimes de alto impacto e na apreensão de 327 toneladas de drogas.

Segundo dados oficiais apresentados pela presidência mexicana, essas ações contribuíram para uma queda de 42% nos homicídios no país, levando a média diária de assassinatos ao menor nível registrado em 16 meses.

No entanto, a disputa jurídica entre México e a indústria de armas dos Estados Unidos sofreu um revés significativo em junho de 2025, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitou um processo movido pelo governo mexicano contra fabricantes de armas.

A ação judicial buscava uma indenização de US$ 10 bilhões, sob a alegação de que empresas do setor contribuíam indiretamente para a violência no México ao permitir que seus produtos chegassem aos cartéis. O tribunal decidiu, porém, que as fabricantes não podem ser responsabilizadas pelo uso criminoso das armas que produzem.

Ao contestar a narrativa de Trump de que o México seria o “epicentro da violência”, Sheinbaum voltou a destacar os resultados da estratégia de segurança baseada em inteligência e na atuação coordenada das forças nacionais.

Nesse contexto, autoridades mexicanas também apontaram como marco recente a operação realizada em 22 de fevereiro, na qual foi morto Nemesio Oseguera, líder do Cartel Jalisco Nova Geração e considerado um dos criminosos mais procurados tanto pelo México quanto pelos Estados Unidos.

Ao encerrar sua posição sobre o tema, Sheinbaum reiterou que o país seguirá cooperando com outras nações em matéria de inteligência e coordenação contra o narcotráfico, mas deixou claro o limite dessa colaboração. Segundo a presidente, a política mexicana continuará baseada no princípio de “cooperação sim, intervenção não”, mantendo as operações de segurança exclusivamente sob controle das instituições nacionais.