Carros da PF e da Receita Federal na Avenida Faria Lima, em São Paulo, durante a Operação Carbono Oculto, contra lavagem de dinheiro - 28/08/2025 (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

Movimentações envolvem debêntures sigilosas, Banco Master e empresas sob investigação

Um fundo de investimento com patrimônio superior a R$ 1,8 bilhão aparece no centro de uma série de operações financeiras que conectam uma fintech investigada por suposta atuação em favor do Primeiro Comando da Capital (PCC), empresas ligadas ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e a estrutura de financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro (PL).

As informações, segundo a Folha de São Paulo, relatórios sigilosos de inteligência financeira produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam movimentações consideradas atípicas e indicam o uso de estruturas que teriam dificultado a identificação dos beneficiários finais dos recursos.Play Video

Fundo cresceu de R$ 480 milhões para R$ 1,84 bilhão

O Gold Style Fundo de Investimento em Direitos Creditórios foi constituído em abril de 2020 com aporte inicial de R$ 480,1 milhões. Dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que, em maio de 2024, o patrimônio líquido do fundo havia alcançado R$ 1,84 bilhão.

O fundo é administrado pela Reag Trust, instituição que foi liquidada em janeiro deste ano. A gestora também foi citada em investigações da Polícia Federal relacionadas ao Banco Master, que teve sua liquidação decretada pelo Banco Central em novembro de 2025.

Segundo a reportagem, os relatórios analisados indicam que operações associadas ao Gold Style foram utilizadas para criar camadas adicionais de movimentação financeira, dificultando o rastreamento dos recursos e a identificação dos envolvidos.

Transações com fintech investigada por ligação com o PCC

Um dos principais pontos levantados pelos relatórios envolve a BK Bank, fintech investigada na Operação Carbono Oculto, que apura a infiltração do PCC no sistema financeiro.

De acordo com os documentos, a BK Bank realizou transferências de R$ 133,6 milhões para o Gold Style em 2023. Outras operações registradas em 2024 e 2025 somaram mais R$ 12,9 milhões.

As investigações conduzidas pela Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo apontam que a fintech teria disponibilizado estruturas financeiras capazes de dificultar o rastreamento de recursos movimentados por empresas de fachada ligadas a organizações criminosas.

Além disso, os relatórios registram operações de R$ 311,7 milhões entre o Gold Style e a Aster Petróleo, empresa investigada por suspeitas de fraudes no setor de combustíveis e também citada na Operação Carbono Oculto.

A BK Bank não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

Conexão com o filme Dark Horse

Os documentos do Coaf também apontam movimentações de pelo menos R$ 20 milhões entre o Gold Style e a Entre Investimentos e Participações. A empresa foi citada em reportagens sobre os repasses destinados à produção de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que conta com a participação de seus filhos Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro.

Segundo informações do site The Intercept Brasil, Daniel Vorcaro teria utilizado a Entre Investimentos para realizar transferências destinadas ao projeto audiovisual. A reportagem informa que Flávio Bolsonaro procurou Vorcaro para viabilizar aportes financeiros voltados à produção.

Em nota enviada à Folha, a Entre Investimentos afirmou que “a empresa reforça compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento da legislação vigente, permanecendo à disposição das autoridades competentes sempre que necessário.”

Debêntures sigilosas somam R$ 3,6 bilhões

Outra frente de investigação envolve operações com debêntures privadas e sigilosas. Segundo uma comunicação da B3 ao Coaf, foram identificadas 11 emissões que somam R$ 3,6 bilhões. As operações envolveram 12 fundos de investimento, incluindo o Gold Style, além dos bancos Master, Pleno e Digimais.

Os relatórios apontam características consideradas incomuns, como emissões com padrões semelhantes de valores e remuneração, contratos vencidos liquidados por valor zero, divergências de preços e movimentações cruzadas entre fundos e instituições financeiras. Por serem operações privadas, os documentos não permitem identificar os beneficiários finais dos recursos.

Operações com empresas ligadas a Vorcaro

Os relatórios também registram uma movimentação de R$ 180 milhões entre o Gold Style e a Super Empreendimentos, empresa apontada como uma estrutura financeira ligada a Daniel Vorcaro. Há ainda registros de transações com o fundo Máxima, que tinha o Banco Master como responsável.

Procurada pela reportagem, a Reag Trust informou que não comentaria o assunto. A defesa de Daniel Vorcaro também declarou que não se manifestaria. O Digimais afirmou que não comentará o caso devido ao processo de venda da instituição. Já o Banco Pleno não respondeu aos questionamentos encaminhados pela Folha.

Em nota, a B3 informou que comunica diariamente ao Coaf e à BSM, braço de autorregulação do mercado, eventuais inconsistências, discrepâncias ou indícios de irregularidades identificados em operações financeiras.