Cientista político norte-americano afirma que o genocídio em Gaza e a repressão a críticos alimentam o avanço do antissemitismo
cientista político norte-americano Norman Finkelstein afirmou que Israel “colhe o que plantou” ao associar sua política de Estado ao povo judeu e, segundo ele, contribuir para o avanço de episódios de antissemitismo no mundo em meio à guerra em Gaza. Autor de “A Indústria do Holocausto”, relançado no Brasil pela Autonomia Literária, Finkelstein veio ao país para participar da Feira do Livro e defendeu que o governo israelense comete genocídio no território palestino enquanto organizações judaicas tentam conter críticas às ações de Israel, relata a Folha de São Paulo.
Filho de sobreviventes do Holocausto e conhecido por suas posições críticas à política israelense nos territórios palestinos, Finkelstein sustenta que Israel utilizou durante décadas a memória do extermínio nazista como forma de obter proteção política e moral diante de denúncias de violações de direitos humanos. No livro, publicado originalmente há 26 anos, ele acusa organizações judaicas de instrumentalizar o Holocausto para blindar Israel de críticas e buscar indenizações indevidas.
“O Holocausto provou ser uma arma ideológica indispensável. Por meio de seu uso, uma das potências militares mais formidáveis do mundo, com um histórico horrendo de direitos humanos, apresentou-se como um Estado ‘vítima’. Dividendos consideráveis decorrem dessa vitimização espúria — em particular, imunidade a críticas”, escreveu Finkelstein.
Questionado sobre a atualidade dessa análise após 7 de outubro, data do ataque do Hamas a Israel que deu início ao genocídio palestino em curso, o cientista político afirmou que houve uma mudança relevante. Para ele, Israel tentou inicialmente recorrer ao Holocausto ao dizer que aquele havia sido o maior massacre de judeus desde o extermínio nazista, mas abandonou essa estratégia quando percebeu que o argumento poderia se voltar contra o próprio Estado israelense.
“Algo fundamental mudou depois do 7 de Outubro. Sempre que Israel cometia crimes significativos sob o direito internacional, encontrava uma maneira de recorrer ao Holocausto nazista para conseguir algum tipo de imunidade. Após o 7 de Outubro, durante o primeiro mês, ficavam dizendo que havia sido o maior massacre de judeus desde o Holocausto nazista. Depois, pararam de dizer isso”, disse.
Segundo Finkelstein, Israel teria compreendido que insistir nessa comparação poderia fortalecer acusações de genocídio em Gaza. Ele citou a ação apresentada pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça em dezembro como um marco nesse debate. “Eu acho que a indústria do Holocausto acabou”, afirmou.
Crimes de guerra e padrão moral
Ao comentar os mandados do Tribunal Penal Internacional contra o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e contra líderes do Hamas, Finkelstein disse reconhecer que ataques contra civis em grande escala configuram crime de guerra. Ele afirmou que “atrocidades massivas foram cometidas no 7 de Outubro”, mas defendeu uma distinção entre o padrão jurídico e o julgamento moral.
“É uma questão de definição. Se você ataca civis em grande número, é um crime de guerra. Mas devemos aplicar o mesmo padrão moral ao Hamas e a Israel? Há um padrão legal, e eu não o contesto. Atrocidades massivas foram cometidas no 7 de Outubro”, disse.
O cientista político também contestou conclusões de relatórios divulgados por Israel sobre o ataque. “O Hamas não usou o estupro como arma no 7 de Outubro. As mortes de civis israelenses não são contestadas. Atrocidades de magnitude significativa ocorrem. Não estou questionando esse ponto”, declarou.
Ao ser questionado se isso justificaria matar civis, Finkelstein negou defender tal posição, mas disse não se considerar em condição de condenar moralmente a população de Gaza ou o Hamas. “Eu nunca disse que é justificado. Mas não vou subir em um palanque e repreender o povo de Gaza. Acho muito presunçoso fazer isso”, afirmou.
Gaza, cerco e expulsão
Finkelstein descreveu o futuro de Gaza em termos sombrios. Para ele, o território palestino está sendo submetido a um processo de confinamento progressivo, comparado por ele ao Gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial.
“Não há futuro. Acabou. É como o Gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial. Ele foi se fechando, apertando as fronteiras, até as pessoas sufocarem”, declarou.
O cientista político afirmou que Israel estaria buscando reduzir cada vez mais a área habitável para os palestinos dentro de Gaza. Ele mencionou uma declaração de Netanyahu segundo a qual Israel controlaria 60% do território, seguida de gritos da plateia por “100%”. De acordo com Finkelstein, o premiê teria respondido: “Não se apressem, vamos agora mirar em 70%”.
Para Finkelstein, o confinamento da população palestina a uma parcela cada vez menor do território criaria condições insustentáveis. “Bem, Gaza já estava entre as populações mais densas do mundo, e agora essa população vai ser confinada a 30% de Gaza. Isso é sufocamento literal”, afirmou.
Ele disse acreditar que Israel pretende tornar a vida em Gaza tão difícil que os palestinos busquem sair por conta própria. “Eles vão criar condições tão horríveis que as pessoas farão como aquelas pessoas de países da África fugindo de barco para a Itália”, disse.
Mudança na opinião pública
Finkelstein afirmou que o ambiente político nos Estados Unidos mudou de forma significativa desde o início da guerra. Segundo ele, hoje seria mais difícil defender publicamente Israel do que criticá-lo em determinados espaços da sociedade norte-americana.
“Provavelmente, neste momento nos EUA, é mais difícil dizer algo pró-Israel do que anti-Israel. Fico feliz que as pessoas estejam criticando Israel, mas não posso dizer que isso exija muita coragem”, afirmou.
Ele sustentou que Israel perdeu apoio popular rapidamente após 7 de outubro. “Depois do 7 de Outubro, em um mês, Israel havia perdido a opinião pública. O único grupo etário que ainda é pró-Israel são os republicanos acima de 50 anos”, disse.
O cientista político também comentou uma suposta fala de Donald Trump a Netanyahu, segundo a qual “todo mundo odeia você e Israel”. Para Finkelstein, essa percepção corresponderia ao cenário atual.
Trump, Irã e o estreito de Ormuz
Apesar da queda de popularidade de Israel, Finkelstein disse não acreditar que Trump abandonaria o apoio ao país. Na avaliação dele, o ex-presidente norte-americano mantém preocupações estratégicas relacionadas ao Irã e ao estreito de Ormuz.
“Não. Ele precisa abrir o estreito de Ormuz porque os indicadores mostram que estamos à beira de um colapso global. Trump não dá a mínima se o Irã tem armas nucleares. Mas ele não pode deixar o Irã ter armas nucleares porque seria uma derrota histórica para os EUA”, afirmou.
Finkelstein disse acreditar que os Estados Unidos tentarão manter o tema nuclear iraniano em debate até o fim do mandato de Trump, sem chegar a uma solução definitiva. “Uma vez que Ormuz estiver aberto, o Irã vai desaparecer das manchetes. Como a Groenlândia. Eles vão dizer: ‘Vamos resolver a questão das armas nucleares.’ E nunca vão resolver”, declarou.
Universidades e liberdade de expressão
Ao tratar da liberdade de expressão nos Estados Unidos, Finkelstein afirmou que o ambiente universitário continua marcado pelo medo entre estudantes e professores que criticam Israel.
“Nas universidades, ainda é um reinado de terror. Todo mundo está apavorado. Eles viram estudantes sendo suspensos, sendo privados do direito de participar da formatura, sendo expulsos e deportados”, disse.
O cientista político também respondeu às críticas do historiador Omer Bartov, especialista no Holocausto, que acusa Israel de cometer genocídio em Gaza, mas classificou o argumento de Finkelstein sobre uma conspiração judaica internacional para lucrar com o Holocausto como algo próximo da paranoia e útil a antissemitas.
Finkelstein rejeitou a crítica e afirmou que Bartov também poderia ser acusado de alimentar discursos antissemitas ao dizer que Israel comete genocídio. “Ele dizer que Israel está cometendo genocídio também serve a antissemitas. Então por que ele escreveu o novo livro dele?”, questionou.
O autor de “A Indústria do Holocausto” afirmou que sua obra apenas expressou publicamente uma percepção já existente. “É um problema. Mas a única novidade do meu livro era que eu disse em voz alta o que muita gente estava pensando”, disse.
Antissemitismo e críticas a Israel
Ao comentar o crescimento de ataques antissemitas, Finkelstein afirmou que parte dos relatos sobre antissemitismo em universidades seria exagerada e usada para justificar repressão à liberdade de expressão. Ainda assim, reconheceu haver aumento de ataques contra sinagogas e judeus.
“Há muita raiva e ressentimento contra os judeus agora. Então há um transbordamento natural porque Israel se autodenomina o Estado dos judeus. As pessoas não gostam do fato de que um genocídio está acontecendo e elas têm medo de dizer qualquer coisa sobre isso”, declarou.
Finkelstein atribuiu esse cenário à identificação entre Israel e o povo judeu promovida pelo próprio Estado israelense e por organizações judaicas. “Minha visão é: você colhe o que plantou. Esse ódio não é irracional. É uma reação justificável às organizações judaicas tentando reprimir a liberdade de expressão”, afirmou.
Questionado sobre judeus que discordam das ações de Netanyahu e mesmo assim sofrem ataques antissemitas, Finkelstein respondeu que o problema estaria na forma como Israel se apresenta. “Parem de chamar Israel de Estado do povo judeu e não teremos esse problema. Se as organizações judaicas pararem de tentar chantagear as pessoas para que não critiquem Israel também vão resolver o problema”, disse.
Para ele, preconceitos existem contra diferentes grupos, mas se tornam especialmente graves quando se transformam em violência e perseguição. Finkelstein afirmou que, após a Segunda Guerra Mundial, houve uma onda de solidariedade aos judeus, cenário que, em sua visão, teria sido revertido pelas políticas israelenses.
“Uma das maiores conquistas de Israel foi conseguir restaurar o ódio do mundo pelos judeus”, declarou.
Quem é Norman Finkelstein
Norman Finkelstein, 72 anos, é cientista político e autor norte-americano. Filho de sobreviventes do Holocausto, formou-se na Binghamton University e obteve doutorado em ciência política pela Princeton University. Tornou-se conhecido por seus estudos sobre o conflito israelo-palestino e por críticas contundentes à política de Israel nos territórios palestinos.
Entre seus livros mais conhecidos está “A Indústria do Holocausto”, lançado no Brasil pela Autonomia Literária. Na obra, Finkelstein sustenta que a memória do Holocausto foi usada politicamente para proteger Israel de críticas e obter ganhos materiais, tese que permanece no centro das polêmicas em torno de sua trajetória intelectual.













