Presidente do Irã Masoud Pezeshkian em Tianjin, na China (Foto: Iran's Presidential website/Divulgação via REUTERS)

Em negociações com os Estados Unidos na Suíça, Teerã sinaliza compromisso contra armas nucleares, mas rejeita abrir mão do programa de enriquecimento

O governo do Irã afirmou neste domingo (21) que está disposto a formalizar garantias de que não desenvolverá armas nucleares, mas reiterou que não pretende abandonar seu programa de enriquecimento de urânio. A declaração ocorre em meio à retomada das negociações entre representantes iranianos e norte-americanos na Suíça, em uma tentativa de reduzir as tensões no Oriente Médio.

As informações foram publicadas originalmente pela Agencia France Presse (AFP), reproduzidas pelo jornal O Globo. O posicionamento foi apresentado pelo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, no mesmo dia em que delegações dos dois países iniciaram uma nova rodada de conversas diplomáticas voltadas para questões nucleares e de segurança regional.

Segundo o presidente iraniano, Teerã está disposto a registrar formalmente seu compromisso de não fabricar armamentos atômicos. No entanto, considera inegociável a manutenção do direito de enriquecer urânio para fins que classifica como legítimos.

Irã rejeita abrir mão do programa nuclear

“O que os Estados Unidos exigem é que o Irã não construa uma bomba atômica. Isso não é novidade, e nós também podemos declarar por escrito que não temos intenção de construir uma bomba”, afirmou Pezeshkian, de acordo com informações divulgadas em seu site oficial.

O líder iraniano também deixou claro que o país não aceitará restrições que impliquem o encerramento de seu programa nuclear civil. “No entanto, não abriremos mão do nosso direito ao enriquecimento, e o outro lado não terá escolha a não ser aceitar esse direito”, declarou.

A posição reafirma um dos principais pontos de divergência entre Teerã e Washington. Enquanto os Estados Unidos buscam limitar as capacidades nucleares iranianas, o governo do Irã insiste que o enriquecimento de urânio faz parte de seus direitos soberanos.

Conflito no Líbano entra na pauta das negociações

Além da questão nuclear, autoridades iranianas indicaram que os acontecimentos no Líbano terão papel central nas discussões realizadas na Suíça. O tema ganhou destaque após novos confrontos envolvendo Israel e o Hezbollah, grupo aliado de Teerã.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baqai, afirmou que a situação no território libanês será tratada como prioridade durante os encontros diplomáticos.

“O regime sionista continua a violar seus compromissos no Líbano; esta questão será o principal ponto de discussão nas conversas de hoje”, declarou Baqai em vídeo divulgado pela agência estatal iraniana.

Ativos congelados e petróleo também serão debatidos

Segundo o porta-voz iraniano, outras questões econômicas relevantes também fazem parte da agenda. Entre elas estão os recursos financeiros iranianos bloqueados no exterior e as restrições relacionadas à comercialização de petróleo.

“A questão da disponibilidade de ativos financeiro iranianos congelados ou restritos, bem como discussões relacionadas à emissão das licenças necessárias para a venda de petróleo iraniano, também estarão na agenda”, afirmou.

As negociações ocorrem dentro de um acordo previamente firmado entre os dois países, que prevê um período renovável de 60 dias para discussões sobre temas estratégicos, incluindo o programa nuclear iraniano.

Fechamento do estreito de Ormuz aumenta tensão

O ambiente das negociações foi impactado por novos episódios de instabilidade na região. No sábado, o Irã anunciou a retomada do fechamento do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o transporte global de petróleo.

A medida foi apresentada por Teerã como resposta à continuidade de bombardeios israelenses. O estreito conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e é considerado fundamental para o comércio internacional de energia.

O fechamento da passagem marítima elevou preocupações nos mercados internacionais e adicionou um novo elemento de pressão às conversas diplomáticas em andamento.

Delegações chegam à Suíça para rodada decisiva

As reuniões acontecem em Bürgenstock, região montanhosa às margens do Lago Lucerna, na Suíça. Autoridades dos países envolvidos começaram a chegar ao local ao longo do fim de semana.

Pelos Estados Unidos, a delegação é liderada pelo vice-presidente JD Vance, que desembarcou no país europeu nas primeiras horas deste domingo. Segundo ele, as conversas deverão se estender por alguns dias.

“Espero que possamos avançar com a questão nuclear e com o cessar-fogo no Líbano. Essas são as duas principais questões em que nos concentraremos”, afirmou Vance antes de deixar os Estados Unidos.

A delegação iraniana inclui o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Qalibaf, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, e o presidente do Banco Central do país, Abdolnaser Hemmati. Representantes do Paquistão também participam das tratativas como mediadores, entre eles o primeiro-ministro Shehbaz Sharif e o chefe do Estado-Maior do Exército paquistanês, Asim Munir.