Pedido da AEUNAS ocorre em meio às investigações da Operação Rota Desviada, que apura suspeitas de desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o transporte universitário.
NOVA ALVORADA DO SUL (MS) – A crise envolvendo o transporte universitário em Nova Alvorada do Sul ganhou um novo capítulo. A Associação dos Estudantes Universitários de Nova Alvorada do Sul (AEUNAS) protocolou na Câmara Municipal um pedido formal para a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar o contrato milionário firmado entre a Prefeitura, administrada pelo prefeito José Paulo Paleari, e a empresa Anjos Transportes e Turismo Ltda.
O requerimento surge em um momento delicado, quando o mesmo contrato já é alvo da Operação Rota Desviada, conduzida pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), que investigam suspeitas de desvio de recursos públicos, peculato, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Salto de 160% levanta suspeitas
No documento encaminhado ao Legislativo, a AEUNAS sustenta que houve um crescimento considerado desproporcional nos valores destinados ao transporte universitário.
Os repasses passaram de:
- R$ 803,7 mil em 2023;
- R$ 900,4 mil em 2024;
- R$ 2,4 milhões em 2026.
Segundo a associação, o aumento de aproximadamente 160% não foi acompanhado de justificativas técnicas capazes de explicar a elevação dos custos.
Além disso, a entidade afirma que o investimento realizado por Nova Alvorada do Sul supera, com ampla margem, os valores praticados por municípios com população semelhante ou até significativamente maior.
Comparação com cidades vizinhas
Dados apresentados pelo Ministério Público Estadual mostram um cenário que chamou a atenção dos órgãos de fiscalização.
Enquanto Nova Alvorada do Sul, com cerca de 23 mil habitantes, empenhou R$ 2,4 milhões para o transporte universitário, municípios maiores registraram despesas muito inferiores:
- Maracaju (45 mil habitantes): aproximadamente R$ 1,2 milhão;
- Amambai (41 mil habitantes): R$ 510 mil em 2026;
- Jardim (24 mil habitantes): apenas R$ 156 mil.
A diferença motivou a promotora Fernanda Rottili a classificar a situação como uma “escandalosa desproporção” entre o tamanho da população e os gastos públicos realizados.
MP determinou freio nos pagamentos
Em junho, o Ministério Público Estadual determinou a redução imediata das despesas relacionadas ao transporte universitário.
A medida ocorreu após constatação de que, em apenas dois meses de execução da parceria entre a Prefeitura e a AEUNAS, haviam sido desembolsados R$ 720 mil, restando ainda R$ 1,68 milhão previsto para pagamento.
Para evitar novos desembolsos considerados excessivos, a promotora condicionou futuras liberações financeiras à apresentação mensal de documentação detalhada, incluindo:
- diários de bordo dos veículos;
- notas fiscais de combustível;
- comprovação da quilometragem percorrida;
- listas de frequência dos estudantes efetivamente transportados.
O objetivo é assegurar que os pagamentos estejam vinculados à prestação real do serviço.
Estudantes podem ficar sem transporte
Ao mesmo tempo em que pede investigação rigorosa, a própria associação relata enfrentar uma situação crítica.
Segundo a presidente da AEUNAS, Sara Lins, a empresa responsável pelo transporte comunicou que não possui condições financeiras para continuar prestando o serviço durante o restante do semestre sem que os estudantes arquem integralmente com os custos.
A dirigente afirma que os universitários vivem um impasse.
De um lado, existe a recomendação do Ministério Público para restringir os pagamentos públicos.
Do outro, centenas de estudantes correm o risco de perder o transporte necessário para frequentar universidades em Campo Grande e Dourados.
Por isso, além da CPI, a entidade solicita que a Câmara convoque o prefeito José Paulo Paleari, bem como os secretários municipais de Administração e de Finanças, para prestar esclarecimentos sobre a execução do contrato.
Operação Rota Desviada
As suspeitas envolvendo o transporte universitário culminaram, em 19 de maio, na deflagração da Operação Rota Desviada, conduzida pelo Gecoc em conjunto com o Gaeco.
Na ocasião, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão em:
- Campo Grande (MS);
- Nova Alvorada do Sul (MS);
- Dourados (MS);
- Fernandópolis (SP);
- Ituiutaba (MG).
Segundo o Ministério Público, as investigações apontam que a AEUNAS teria sido utilizada para operacionalizar um esquema ilícito envolvendo recursos públicos destinados ao transporte de universitários.
Conforme divulgado pelo Gecoc, os valores provenientes do termo de fomento firmado entre o Município e a associação teriam sido desviados por meio de sucessivas transferências financeiras que beneficiariam servidores públicos e integrantes do Poder Legislativo municipal.
Os investigadores apuram possíveis crimes de:
- peculato;
- corrupção ativa;
- corrupção passiva;
- lavagem de dinheiro.
Câmara poderá ampliar fiscalização
Caso a CPI seja instaurada, os vereadores terão poderes para requisitar documentos, convocar autoridades, ouvir testemunhas e analisar a execução financeira do contrato firmado entre o Município, a AEUNAS e a empresa responsável pelo transporte.
A comissão poderá verificar a legalidade da contratação, a formação dos preços, a fiscalização dos serviços prestados e a correta aplicação dos recursos públicos, enquanto as investigações conduzidas pelo Ministério Público seguem em andamento.
Até o momento, não há decisão definitiva da Justiça sobre as suspeitas investigadas, e os fatos permanecem sob apuração pelos órgãos competentes.













