
Parte dos crimes aconteceu no bairro Santa Brígida – Crédito: Wender Carbonari/Dourados News/Arquivo
Cinco dias após o crime bárbaro que chocou a população de Dourados, as impressões sobre o caso do atirador suicida parecem ainda não dar conta de explicar a motivação que levou uma pessoa aparentemente “normal” a agir de maneira fria e violenta.
No dia 12 de julho, Rosemir Fernandes, 52, assassinou a ex-mulher, Lucineide Maria dos Santos Ortega, 51, matou uma criança de apenas quatro anos e feriu outras cinco pessoas antes de cometer suicídio. (relembre)
O Dourados News entrou em contato com profissionais da área da saúde para tentar encontrar respostas ou, pelo menos, proporcionar algumas reflexões sobre esse assunto tão delicado.
O psicólogo Renisson Araújo, 29, é um dos estudiosos sobre o tema em Dourados e explica que “o suicídio é um fenômeno que acontece em todos os continentes e em todas as culturas. De modo geral, parte dos países tem apresentado uma queda nas taxas, mas o Brasil tem ido na contramão”.
Sobre o caso específico ocorrido no município há quase uma semana, tanto Araújo, quanto os demais profissionais consultados destacaram um aspecto importante implícito nas ações de Rosemir Fernandes: uma suposta defesa à “honra”.
O psicólogo Carlos Valiente, 33, adverte ser imprescindível um aprofundamento do caso para que seja possível a compreensão por completo, mas relaciona a motivação do atirador a uma questão que vai além dos aspectos apenas individuais.
“A única certeza é que o caso escancara um problema social: o feminicídio, cuja motivação provém do machismo e o sentimento de posse que o homem tem em relação à mulher. Embora muitos ‘feminicidas’ apresentem psicopatia, nem todo ‘feminicída’ apresenta uma doença mental”, comentou Valiente.
O terceiro profissional de saúde entrevistado, Bruno Pael, 35, relaciona este mesmo problema social às raízes históricas intrínsecas aos comportamentos atuais.
Assim como os outros psicólogos, Bruno fala dos “modelos vigentes de masculinidade, norteado por crenças e condutas influenciadas pelo perigoso e frágil ideário machista”.
Pael explica, por exemplo, que no período de colonização do Brasil, se um homem descobrisse ter sido traído por sua esposa ele tinha o direito matar a mulher e o amante. Mesmo depois da independência do país, demorou-se muitos anos para que esta prática fosse questionada. Na época o feminicídio era chamado de “crime de paixão”.
O psicólogo chama a atenção para este tipo de crime tão violento e que deu origem a classificação de “crime passional”, como se a paixão fosse algo que justificasse a violência mais absoluta, que é tirar a vida de outra pessoa.
Por fim, os profissionais advertem que o caso bárbaro que aconteceu em Dourados desperta várias discussões necessárias relacionadas a liberdade feminina e principalmente às crenças masculinas que leva a alguns, em última medida, a querer defender e reafirmar sua posição de dominador, geralmente justificando para si e para os outros que está a defender a própria honra.
Fonte: Dourados News













