Celso Amorim (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Chanceler afirma que país é “grande potência”, critica guerras recentes e alerta para disputa por minerais estratégicos e crise da ordem internacional

O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, recebeu nesta quinta-feira (24), o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo, e fez um discurso de forte conteúdo geopolítico, no qual defendeu a soberania nacional, criticou a escalada de guerras no cenário internacional e reafirmou o papel estratégico do Brasil como protagonista global.

Ao agradecer a honraria, Amorim destacou o simbolismo da UFABC, lembrando sua origem ligada às lutas do movimento sindical do ABC paulista. Segundo ele, a universidade representa “um exemplo eloquente das conquistas da luta dos trabalhadores”.

Ele também ressaltou a importância histórica do momento em que a instituição foi criada, nos primeiros governos do presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff, período que classificou como marcado pelo “otimismo” e pela concretização de projetos estruturantes para um país mais justo.

Soberania como eixo estratégico

Amorim organizou sua fala a partir do conceito de soberania, que definiu de maneira direta:

“Um país soberano é um país capaz de pensar por conta própria. Um país soberano é um país livre para escolher o caminho que mais beneficie os seus interesses.”

Para ele, em um mundo em transformação, a autonomia tecnológica, a diversificação de parcerias internacionais e a independência política são condições indispensáveis para o desenvolvimento.

Crise global e “mundo em carne viva”

O diagnóstico internacional apresentado por Amorim foi contundente. Ele afirmou que o planeta vive hoje um retrocesso histórico, com o retorno da guerra como principal ameaça global.

“Estamos vivendo em um mundo em carne viva”, afirmou, ao destacar que o direito internacional vem sendo sistematicamente desrespeitado e que a força voltou a ocupar o centro da política internacional.

Segundo ele, a ordem global construída no pós-guerra praticamente deixou de existir, abrindo espaço para uma disputa mais agressiva entre potências.

Guerras, fracasso diplomático e crítica ao unilateralismo

Amorim criticou diretamente conflitos recentes, com destaque para a guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos. Ele apontou violações ao direito internacional, riscos ao comércio global e a ampliação das tensões geopolíticas.

Ao relembrar a atuação do Brasil em 2010, quando, ao lado da Turquia, tentou mediar a questão nuclear iraniana, ele lamentou a falta de apoio das grandes potências à chamada Declaração de Teerã.

“Infelizmente, nossa iniciativa não contou com o apoio dos P5.”

O diplomata afirmou ainda que sucessivas oportunidades de negociação foram desperdiçadas, enquanto a via militar foi priorizada.

Ele também mencionou a guerra na Ucrânia como exemplo de conflito difícil de encerrar, mesmo diante de mudanças políticas e declarações de intenção por parte dos Estados Unidos.

Defesa nacional e autonomia tecnológica

Apesar de reafirmar a tradição pacífica do Brasil, Amorim defendeu o fortalecimento da capacidade de defesa do país.

Segundo ele, a dissuasão é essencial para garantir soberania. Nesse contexto, citou o desenvolvimento do caça Gripen no Brasil como exemplo de política estratégica bem-sucedida, baseada na transferência de tecnologia e no fortalecimento da indústria nacional.

Ele também destacou a aprovação de recursos para projetos de defesa, mas alertou que o país precisa avançar ainda mais, especialmente diante das transformações tecnológicas, como o uso de drones e inteligência artificial.

Minerais críticos e soberania econômica

Um dos pontos centrais do discurso foi a disputa global por minerais estratégicos. Amorim defendeu que o Brasil não deve se limitar à exportação de commodities, mas sim avançar no processamento e agregação de valor.

“Não queremos ocupar apenas o papel de exportador de commodities. Queremos fazer o processamento no país.”

Ele comparou o momento atual a decisões históricas, como a criação da Petrobras e da Companhia Siderúrgica Nacional, destacando a necessidade de visão estratégica e ação coordenada entre Estado e sociedade.

Brasil como grande potência

Amorim rejeitou a classificação do Brasil como “potência média” e fez uma afirmação enfática:

“Não tenho nenhum medo de dizer que o Brasil é uma grande potência.”

Ele argumentou que o país reúne características únicas, estando entre os maiores do mundo em economia, população e território, além de possuir relevância ambiental, integração regional e participação ativa em fóruns como BRICS e G20.

Para ele, o objetivo deve ser a construção de uma ordem internacional multipolar, baseada na autonomia dos países e não em relações de subordinação.

América do Sul, Venezuela e Cuba

O diplomata reforçou que o futuro do Brasil está diretamente ligado ao da América do Sul, defendendo a integração regional como prioridade estratégica.

Ele também manifestou preocupação com a situação da Venezuela, classificando como “sem precedentes” o sequestro do presidente Nicolás Maduro, e mencionou as dificuldades enfrentadas pela vice-presidenta Delcy Rodríguez.

Sobre Cuba, criticou a política de sanções, afirmando que ela revela a “crueldade” de mecanismos de pressão econômica.

Gaza e violações do direito internacional

Amorim também citou o genocídio em Gaza e a guerra no Líbano como exemplos de violações graves que não podem ser esquecidas, mesmo diante da velocidade do ciclo de notícias.

Ordem multipolar e autonomia brasileira

Encerrando sua fala, Amorim defendeu que o Brasil deve continuar atuando pela paz e por uma nova ordem internacional mais equilibrada.

Em tom crítico à lógica de dominação entre países, ele afirmou:

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”

A declaração sintetiza a visão apresentada ao longo do discurso: um país que busca soberania, autonomia e protagonismo em um mundo marcado por disputas crescentes e pela crise das instituições internacionais.